A morte dos valores


  

 

                                                        Senador Cristovam Buarque

   

A humanidade testemunha, neste início de século, uma triste transformação. No mundo inteiro, e também no Brasil, os valores estão em estado terminal. O  valor da honestidade desapareceu, substituído pelo reconhecimento da riqueza, que  atualmente é medida pela capacidade de produzir.Já não são vistos como  riqueza a cultura, o respeito, a religiosidade, o bem-estar. Um país cuja renda  nacional seja elevada, mas concentrada nas mãos de poucos, é considerado mais  rico do que outro que tenha sua renda distribuída com mais justiça. Um país que  derrube florestas para plantar soja é tido como mais rico do que outro que  proteja sua natureza. Uma sociedade que tolere o analfabetismo, a educação de má  qualidade e a violência, mas que tenha renda per capita elevada, é classificada como desenvolvida.  Está em estado terminal o próprio valor da palavra. O que vale é a aparência,  não o real. O que importa é o que mostra a publicidade, o que traz a  televisão, e não aquilo que todos sabemos que de fato existe. Como diz o filósofo  francês Jean Baudrillard, a realidade é um
 simulacro, um espetáculo. As guerras só  são reais se forem transmitidas ao vivo pela televisão, têm causas e  implicações controladas pelos proprietários das grandes redes de comunicação, e por  eles costumam ser moralmente justificadas.
O valor da sabedoria também está em crise. Foi substituído pelo valor da  especialização, pelo domínio e utilização de técnicas para enriquecimento próprio.  No mundo de hoje, por exemplo, Sócrates não seria considerado um sábio: não  teve um ofício que o enriquecesse, ensinou o que lhe parecia correto, e não o  que tinha utilidade. Pior: morreu, porque não aceitou se corromper.

Está em estado terminal o valor da sensibilidade. No mundo em que vivemos e  trabalhamos, não temos o direito de ter sensibilidade.A banalização da maldade  nos torna frios, indiferentes, insensíveis. Os sensíveis são considerados  fracos.Vivemos ainda uma grave crise no valor da semelhança.A desigualdade reinante  é tão grande que não se pode mais afirma   que   os seres humanos cultivam o  valor de se sentirem semelhantes.Quando observamos a diferença na qualidade de  vida de crianças em países africanos e nos países europeus, ou de crianças  ricas e pobres nas várias regiões do Brasil, e olhamos o futuro que terá cada uma  delas, podemos nos perguntar se ainda existe o valor
da semelhança entre a  espécie humana. Dependendo do poder aquisitivo, e do conseqüente acesso aos  produtos da ciência e da tecnologia, alguns terão uma vida mais longa e saudável,  enquanto outros viverão menos e doentes. Muito em breve, apenas poucos seres  humanos vão se reconhecer como semelhantes e cultivarão um sentimento crescente  de distância e dessemelhança com relação aos demais. O valor da semelhança da  nossa espécie está em fase terminal.
Decididamente, nosso mundo vive a morte dos valores.

Uma resposta para “A morte dos valores”

  1. silas da silva santos Disse:

    eu gostei de ve

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