A miséria em Alagoas
Comendo barro, cheirando caldo de galinha, engolindo farinha com molho de pimenta, restos de latas de lixo, ratos, o povo de Alagoas tenta, desesperadamente, sobreviver.
Sete das 10 cidades mais pobres deste país estão aqui neste chão, assistindo a miséria de milhares de seres humanos, sob a tortura da fome e a indiferença dos políticos, que roubam o dinheiro da merenda e do posto de saúde, descaradamente, mesmo conhecendo este quadro de brutalidade que, há décadas, mantém os alagoanos em um estágio de sub vida. A elite finge que não vê tudo isto e apenas quer sair bem na foto em festanças, comelanças e boas negociatas
Se pudesse, e soubesse, só falaria francês, para não se misturar à plebe rude. Madames que só se lembram do Estado, para ganhar sem trabalhar na ALE, nas Secretarias e
nas Câmaras, ou atropelar, semi-embriagadas um pedestre e chamar a polícia, para ajuda-las a fugir. Roubam rindo e matam rindo.
São José da Tapera, além de Traipu é outra destas cidades onde a miséria domina cada rua, cada pé de árvore, cada açude seco, ou Poço das Trincheiras, a cidade-fantasma, onde não existe nem feira no município, que tem os piores indicadores de mortalidade infantil e renda de Alagoas e o IDH mais baixo do país e em que, em certos momentos, muitas horas do dia, as ruas ficam vazias. As pessoas não tem sequer ânimo para se movimentar.
E o que um homem com um mínimo de sensibilidade deve sentir diante de tais fatos, da miséria crônica do povo de Alagoas mais pobre? Desilusão, fastio, revolta, indignação, desprezo? Eu caminho por estes caminhos desta terra e sinto raiva. Raiva dos que
rezam de dia e roubam de noite, em negócios escusos, o pão que tiram do estômago dos famintos; dos que abrem a boca para receber uma hóstia na missa ou gritam “aleluia” nos cultos, mas saem dali, preparados para espoliar, roubar e matar.
Escrevo, por isso, com raiva, mas com esperança. Sem esperança somos dominados pelo nada e pela morte e pelo câncer e pelo niilismo.
Eu estava, há muitos anos, em um teatro, assistindo Gota D’água, de Chico Buarque de Hollanda, no Rio de Janeiro, quando a polícia da ditadura entrou, arma em punho, e fechou o teatro. Mas em mim o que eu ouvia de dentro, era o Monólogo do Povo, na
voz eletrizante de Bibi Ferreira: “Eu falo é do infeliz do seu povo que anda perdido aos trancos e barrancos, ouvindo na televisão sua própria desgraça, seu povo que é urgente, força cega, sem ter tempo bom, nem amigos e nem futuro”.
Um povo perdido e sem futuro. Sem presente e sem o direito de ter esperança. Por isso, diante disso, escrevo com raiva. Mas, dentro de mim, mantenho esta chama estranha, esta vontade que se irradia em mim e no que escrevo, de acreditar contra toda a esperança, contra a exposição de todas estas realidades trágicas e cruéis. Com esperança e raiva. A raiva é esta sensação de que tudo seria menos doloroso se as elites que detém o poder econômico, se os políticos que tomam o poder para ficar ricos, abrissem mão de um pouco que fosse do tanto que acumulam, para que aquela menina de Traipu pudesse trocar o pacotinho de caldo de ga-linha por uma comida decente, que tantos prometem banhados em lágrimas e todos descumprem, banhados de hipocrisia e mentira.
Uma letra de música, Procissão, de Gilberto Gil, fala da submissão do povo às religiões, aos poderosos e da revolta de um fiel, que quer ser feliz aqui, nesta vida, e não apenas, quando morrer, e que condena todas as mistificações:
“Muita gente se arvora a ser Deus / E promete tanta coisa pro sertão / Que vai dar um vestido pra Maria / E promete um roçado pro João / Entra ano, sai ano E nada vem / Meu sertão continua ao Deus dará / Mas se existe Jesus no firmamento / Cá na Terra isso
tem que se acabar”.
O Estado vive hoje de transferências do governo federal, metade delas roubadas no meio do caminho pelos “padrinhos”, atravessadores políticos, incapazes de uma atitude que não tenha por trás de si a execrá-vel volúpia de tirar vantagem, de meter a mão. Vide o Senado de Renan e Sarney, quanta lama que estes dois são capazes de vomitar de sua voracidade por tirar vantagem de tudo e de todos.
Fontes: www.extraalagoas.com.br





